quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Resenha: Quanto vale ou é por quilo?


"Quanto vale ou é por quilo?", filme do diretor paranaense Sérgio Bianchi – é uma análise documental sobre os conflitos e confrontos gerados pela desigualdade social brasileira, tendo como pano de fundo uma família composta por Candinho, Clara, tia Mônica e pela personagem Arminda. Personagens estes presentes no conto “Pai contra Mãe” de Machado de Assis livremente adaptado para o nosso cotidiano pelo cineasta e apoiado pelo recurso da inserção das crônicas de Nireu Cavalcanti, do final do século XVIII, extraídas do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro presentes em forma de flash-back no filme, comparando e ilustrando o quão pouco avançamos nestes anos de construção social. Como ainda nos legitimamos nossa hipocrisia e nossa crueldade com um discurso travestido de bom mocismo.

A atualidade e a pertinência do tema nos faz refletir sobre nossas heranças culturais geradas pelo signo do preconceito, da exploração e apropriação de valores sob o discurso da solidariedade e do bem estar social. O filme apresenta um panorama social caótico, onde ficção e realidade se confundem fazendo o espectador mergulhar no imenso mar de lama que nos cerca.
O papel das ONG´S no Brasil é avaliado por três prismas: 1º A promoção que as ONG´S fazem de si mesmas, 2º A promoção da miséria que certas ONG´S fazem assumindo paternalmente a função do seu semelhante e 3º não é fazendo que alguém tenhas as mesmas oportunidades mesmo que por um momento fulgaz possa se tornar melhor.

No filme a violência dos centros urbanos é comparada em igualdade com a violência praticada pelas instituições que saem em defesa de suas contas bancárias tendo como escudo o recurso de serem portadoras das cartas de alforria dos pobres e miseráveis que vivem a mercê da própria sorte nos grandes centros. As ONG´S ao assumirem o papel social do estado acabam interferindo na construção de um verdadeiro projeto de cidadania, transformando pessoas em propriedade, escravizadas pelo lucro dos grandes projetos de “cunho social”, camufladas pelo chavões sociais de inserção no mercado de trabalho, inclusão social e cidadania.

O diretor se utiliza de inúmeros recursos para deflagrar sua arma, em sua retórica poupa bem poucos, inclusive os cineastas que até hoje se beneficiam dos recursos públicos para contarem suas histórias. É o semelhante que ele quer atingir, é para a hipócrita sociedade brasileira que apoiada na miséria de alguns se refestela na Ilha de Caras, enquanto outros sonham em ser um Big Brother e saírem do confinamento de ser apenas uma pessoa comum.

O elenco afinado com a proposta torna todos os momentos num espetáculo trágico e profundo, fazem da verdade do roteiro a sua verdade, sim os atores pensam e manifestam seu desconforto interpretando, fingindo ser aquilo que não lhes é próprio. Com uma propriedade típica de quem vive o conflito.

Um filme para se refletir, mesmo quando o diretor abusa do diretor de criticar, mas acerta quando propõe ao espectador que saia de estado habitual de conformação e reflita sobre as máximas: o quê e quem sou nesta história.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

NARRADORES DE JAVÉ

NARRADORES DE JAVÉ


O Povoado de Javé e Antonio Biá sem dúvida alguma são os personagens principais desta estória popular que se constrói pela tradição oral e pelo espírito moleque de sua gente, numa tentativa de salvaguardar sua própria história. Situações típicas de um nordeste bem presente no cotidiano de todos nós, a música, a fofoca, as origens, a ausência de perspectiva em lugares semelhantes á vida pacata de Javé.

O foco narrativo do filme está na preservação dos valores imaterias do povoado constituído pela narrativa dos que fizeram e dos que descendem dos mitos fundantes Indalécio e Maria Dina. Estes heróis reaparecem no cotidiano dos moradores a partir do momento em que eles são informados da “tragédia das águas” que vai inundar o vale com a construção de uma barragem. Como que saídos das águas Indalécio (o nobre chefe guerreiro) e Maria Dina (mulher que de fato teve importância) retornam triunfantes na voz dos moradores, para que suas estórias sejam a base legal para a manutenção de sua rotina de vida ou seja a preservação do vale de Javé.

Um discurssão, descompromissada, acerca de tombamento e patrimônio dentro um perspectiva quase ingênua diante da simplicidade daqueles que desconhecem seu grau de importância. Indalécio e Maria Diná estes sim, os heróicos conquistadores que ao cantarem as divisas do vale de Javé, iniciaram a estória dessa gente e é esta herança sanguínea que passa a ser requerida pelos personagens no filme.

Quando Antonio Biá inicia sua itinerância á colher estórias para a Odisséia do Vale de Javé nos deparamos como que considero a cena mais emblemática do filme, é quando Antonio Biá em visita ao Seu Vicentino lhe explica por que prefere o lápis ao invés da caneta, assumindo categoricamente que só consegue pensar a lápis já que o mesmo obedece o papel e ao pensamento. A natureza de quem recolhe e acolhe histórias imemóriais, o ofício do contador de histórias, de causos sendo explanado de maneira simples e objetiva.

O roteiro de Eliane Caffé e Luiz Alberto Abreu é uma excelência a nossa cultura e a nossa gente, em cada cena, cada personagem, cada rua do pequeno Vale. A sacação de integrar atores e comunidade em nenhum momento compromete a narrativa e sim contribui com a verdade que está sendo contada em seus mínimos detalhes.
A fotografia em tom sépia só valoriza o tom passadista na história, o antigo sendo revisitado e restaurado á luz da memória. A memória do povo de Javé sintetiza as narrativas populares que encontramos pelo o Nordeste afora, histórias contadas nas calçadas pelos nossos avós em noite de lua. Estórias de trancoso no linguajar popular quando nos referimos ao folclore, á capacidade imagética do homem sertanejo de reinventar o curso do tempo.

E assim Indalécio e Maria Diná ganham aspectos variados na voz dos interlocutores que esperam contribuir para a grande história do Vale de Javé, botando no papel o juntado de tudo que é importante.José Dummont é a luz desse caminho, a construção minúnciosa do seu Antonio Bía é satisfação pura. Cada cena, cada momento em que personagem esta presente é sem dúvida alguma um momento de satisfação para o espectador.

O sonho não se realiza. O livro fica preso a memória de quem ouve e vê. Biá não cumpre a promessa, pois sabe que Javé é só um buraco perdido no oco do mundo e que o progresso não para por causa de um bando de analfabetos. Fica a reflexão, até onde vai nosso sentido de humanidade, que grau de importância nos damos? Na construção de um projeto social maior qual será a nossa contribuição? Afinal o jornalista é um contador de histórias que se geram a partir de fatos do cotidiano. No cotidiano de Javé ficou a memória do lugar, pois, o resto ás águas engoliram para dar vez ao desenvolvimento.


• O filme Narradores de Javé da diretora Eliane Caffé ao abordar em seu roteiro a Tradição Oral e Patrimônio Imaterial, ela nos apresenta a face reveladora de um país em que sua memória é apenas um mero atributo daqueles que sobreviveram a corrosão do tempo. O principal legado para as futuras gerações não tem valor constituído, ele está situado apenas no plano do afeto que envolve as relações de toda ordem.

domingo, 20 de setembro de 2009

Tradição Oral e Patrimonio Cultural


A Tradição Oral está presente em nossa cultura como elemento aglutinador da memória de nossos antepassados na construção da história. Os meios de manutenção desta cultura popular vem resistindo as intempéries humanas através dos tempos em nosso planeta.

As mais distintas sociedades preservam esta tradição como forma de fomentar a continuidade de um legado imaterial construído pelos caminhos da memória. Através de uma breve análise do filme Narradores de Javé e os desdobramentos proposto pelo o roteiro se é possível compreender a natureza da tradição oral e do patrimônio cultural pela valoração dos saberes.


Resumo do Trabalho Acadêmico á ser apresentado na 13ª Jornada Literária de Passo Fundo- outubro de 2009.